Infelizmente, a linguagem é linear e as coisas têm que
ser contadas em sucessão. Que fazer, a gente vive no tempo -
há sempre um "antes", um "durante" e um "depois". Mas eu
gostaria que fosse possível fotografar uma amizade de mais
de quatro décadas, como a de Dorival Caymmi comigo.
Não filmar, cujo resultado, por mais que inventem truques
engenhosos, tampouco escapa da linearidade, mas fotografar mesmo.
É como se tudo pudesse ter sido simultâneo, do jeito
em que agora está na minha cabeça. Não me
ocorre uma sucessão ou conjunto de fatos, me vem somente uma
espécie de claridade alegre, risonha, festeira. E não
há como transmitir isso a ninguém.
Mas, se não posso livrar-me da cronologia, posso pelo menos
embaralhá-la à vontade. E agora estamos ele e eu
sentados na casa dele na Bahia, há não sei quantos
anos. Ele em sua poltrona favorita, perto da porta de entrada. Sem
camisa, de bermuda e chinela, peito tomado por colares de contas e
guias de todos os tipos, cabeça repousada sobre o telefone
em que falava, recusando à sua maneira um convite para festa
ou almoço, não lembro bem. Quem nunca viu Caymmi
recusar alguma coisa perdeu um espetáculo único.
Aliás, quem nunca conviveu com Caymmi um pouco assim meio
que perdeu muito, como às vezes se diz lá na
ilha.
Ele nunca recusava convites explicitamente, pelo menos que eu tenha
testemunhado - e testemunhei diversos. Conversava com o convidador
sobre assuntos variados, filosofava um pouco, concordava
enfaticamente com algumas afirmações do outro,
contava histórias, fazia observações,
comentava o tempo, elogiava profusamente quem quer que fosse
mencionado na conversa e ria com freqüência. Enfim,
montavam-se verdadeiras prosas, em que o sujeito acabava se
despedindo e desligando, provavelmente sem entender nada e
não tendo nem certeza sobre se o convite fora mesmo
recusado. Uma vez comentei isso com ele e ele respondeu muito
sério, embora com aquela expressão marota que
não o deixava nem quando ele se aborrecia: "É uma
técnica que eu desenvolvi e só não patenteei
porque só quem sabe usar sou eu".
Acabado o telefonema, passou-se à verdadeira prosa, a que se
dava entre nós. Pode ser que meus amigos pessoais não
acreditem, mas eu ouvia muito mais do que falava. Logo aprendi que
havia algo que denominei, por falta de inventividade, de "a
história de Caymmi". A história não era a da
vida dele, embora sua biografia aparecesse muito, mas era
simplesmente a história. Um dos melhores conversadores que
conheci, expressivo, eloqüente, histriônico, ele pegava
a palavra e ninguém queria mais que ela lhe fosse tomada. A
história começava por algum acontecimento mencionado
e ia seguindo, desenrolando-se como uma serpentina ou uma espiral,
e não acabava nunca. E ninguém que a ouvia queria que
acabasse. E ainda não acabou mesmo, só que não
mais está conosco seu grande contador.
Corte para outro encontro na casa dele, onde eu não tinha
aparecido nem dado notícias havia semanas. Que tinha
acontecido? Respondi que andava me virando. Mercado sempre
difícil para jornalistas, escritores e afins, dureza mesmo.
Mas que ele não se preocupasse, eu me virava. E ele, apesar
de algumas palavras encorajadoras, pareceu não se preocupar
mesmo.
Dias mais tarde, me procura, num dos bicos em que eu batalhava
contra a penúria, o representante de uma agência de
propaganda. Um banco, cliente dessa agência, ia inaugurar sua
primeira filial em Belo Horizonte e haviam escolhido Caymmi para
estrelar um comercial dirigido aos mineiros. Ele só tinha
que aparecer vestido de Dorival Caymmi mesmo e dizer uma frase de
duas linhas. Tudo acertado, foram a ele e mostraram a frase.
Não precisava nem decorá-la, podia ler de um cartaz
posto à sua frente, fora de cena. Ele a examinou com
gravidade, fez a beiçola de dúvida que era
também marca sua e perguntou quem tinha escrito aquele
negócio.
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- Um redator lá da agência, é só isso
mesmo que o cliente quer que o senhor diga, é só
dizer essas palavrinhas.
- Não digo. Só digo textos de alta qualidade
literária.
- Mas qualidade literária aqui, o senhor...
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Data de criação : 07/07/23 Última atualização : 12/04/14 12:52 / 1508 Artigos publicados
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