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Jonas Silva conta como, em 1950, deu lugar a João Gilberto nos Garotos da Lua  (BOSSA NOVA) escrito em quarta 27 agosto 2008 22:06

Ele pagou o preço de ser moderno. Voz pequena e suave, afinação perfeita e senso rítmico apurado, Jonas Silva tinha um estilo de canto muito à frente de sua época. Estamos falando da virada dos anos 1940 para os 50, quando o grupo no qual nosso personagem era crooner, Garotos da Lua, então contratado da Rádio Tupi, no Rio, foi obrigado a procurar um substituto, depois que um novo

diretor da emissora implicou com aquele cantor diferente. Foi então que um dos Garotos, o baiano Alvinho Senna, lembrou-se de um conterrâneo que acabara de conhecer em Salvador e enviou um telegrama ao desconhecido João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira. Este, fã de Orlando Silva, tentando carreira na Bahia como cantor, não pensou duas vezes, e, como contou Ruy Castro no

livro “Chega de saudade”, embarcou, em 1950, num DC-3 da Panair e ganhou a vaga.

— João também não durou muito nos Garotos. Ele já era muito irresponsável naquela época, faltava aos programas, deixava os colegas na mão... Um ano depois, botaram-no para fora, chamando Edgar Luiz para seu lugar — relembra o Pete Best (o baterista

que cedeu seu lugar a Ringo Starr nos Beatles) da bossa nova, o pernambucano Jonas Silva.

                               

Hoje, aos 79 anos (completará 80 em novembro), ele vive num confortável apartamento no Grajaú, ainda ligado à música: — Indiretamente, fui o inventor da bossa nova. Mas, se formos fazer um levantamento sério, Dick Farney e Lúcio Alves começaram tudo, foram os primeiros cantores modernos brasileiros. Jonas Silva saiu dos Garotos da Lua — que ajudara a formar em 1945, ainda em sua Caruaru natal — mas não desistiu, nem mudou seu jeito moderno de cantar. Participou de  outro grupo vocal e tambémgravou solo. Seu primeiro disco, um compacto de 78 rotações para a gravadora Mocambo, em 1957, trazia as faixas “Rosinha” (esta, dele mesmo) e “Andorinha” — ambas com o piano e o arranjo de outro pioneiro, Johnny Alf — e foi ignorado pelas emissoras e pelo público. Ironicamente, um ano depois, um novo João Gilberto, agora bem distante de seu ídolo Orlando Silva, começaria a ganhar o Brasil e, logo em seguida, o mundo com seu canto suave, a divisão avançada e a revolucionária batida de seu violão. 

— A bossa nova não é o modo de cantar, e sim a batida do violão de João Gilberto. Esse foi o seu grande mérito. Ele soube como poucos sintetizar algo que estava no ar — comenta Silva.

Com “Chega de saudade” começando a mudar a música brasileiro, Jonas Silva teve nova chance. Em 1959, gravou para a Philips compacto duplo “Cheiro de saudade”, que, além da canção-título, de Luiz Antonio e Djalma Ferreira, trazia “Vocêzinha” (Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli), “Mundo mau” (Sidney Moraes e Júlio Rosemberg) e “Saudade querida” (Tito Madi). No acompanhamento, um time de sonhos: Copinha (flauta), Vadico (piano), Baden Powell (violão) e Raul de Barros (trombone).

Mas, àquela altura, o cetro já estava nas mãos de João Gilberto, e os poucos que ouviram Jonas Silva pensaram se tratar de mais um seguidor do baiano de Juazeiro. Alguns dos sambas que João Gilberto gravou depois em sua carreira estavam no repertório dos Garotos da Lua e de Jonas Silva, incluindo “Pra que discutir com madame”, “Dora” e até “O pato”. Em 1991, no disco “João”, o substituto, no que pode ter sido um gesto de reconhecimento, também regravou a “Rosinha” de Silva. — Consegui uns trocadinhos graças a essa versão — diz ele, que, apesar de ter se sentido traído pelos amigos, manteve uma boa relação com o baiano bossanova.

— João sempre usou as pessoas. Chega com aquela fala mansinha, pede os favores e, depois de conseguir o que quer, some. Mas chega desse assunto. João reclama que não dá entrevistas porque eu falo por ele. Acontece que, devido ao meu trabalho, preciso do contato com a imprensa.

Paralelamente à atividade como cantor, Jonas Silva foi, nos anos 1950, funcionário das Lojas Murray, a principal vendedora de discos importados no Rio, local que reunia os apaixonados por jazz e pela canção americana da época. Da Murray — onde encontrou dona Teresinha, com quem é casado há 50 anos — passou para a gravadora Mocambo, atuando como produtor musical. E, em 1962, criou a sua própria empresa de discos, Imagem, que resistiu até meados da década passada.

— Percebi que as grandes gravadoras não davam atenção ao jazz e à música clássica. Através dos contatos que fiz na Murray, onde era o responsável pela importação dos discos, assinei contrato de distribuição com selos americanos e investi nesse filão. Também licenciei discos de brasileiros, como Johnny Alf e Dom Salvador — diz Silva, que não abandonou a paixão pela música e ainda

 nveste na produção de discos, agora distribuído por outra companhia independente, a CID.

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