Há cinquenta anos morria Heitor Villa-Lobos, um dos mais bem sucedidos e aclamados artistas do século XX, compositor que fez de sua obra um arquétipo da cultura brasileira. As comemorações deste cinquentenário ganham agora certamente uma de suas iniciativas mais ousadas, corajosas e criativas: o novo disco do grupo Rabo de Lagartixa, exclusivamente dedicado à obra do compositor.
Fazendo o caminho inverso ao de Villa-Lobos, que foi buscar na cultura popular elementos para construir uma grandiosa obra erudita, o grupo traz de volta à música popular as melodias que o próprio gênio criou. E a grande surpresa acaba sendo ver como o resultado soa natural, fluido, no ambiente popular, ao mesmo tempo que fiel ao original. Nas palavras de Turíbio Santos, parece mesmo que Villa-Lobos compôs com essa intenção, querendo essa sonoridade.
Em um passado recente outro grande gênio, Tom Jobim, utilizou fortemente em sua obra a arquitetura e o raciocínio harmônico de Villa, assim como de outros como Debussy, e influenciou toda a música popular de depois dele. Pois o Rabo de Lagartixa fez esse mesmo trabalho, dessa vez com a obra do próprio Villa-Lobos, dando a ele, quem diria, o “status” de compositor popular.
O grupo já tinha uma relação forte com a memória do compositor, pois surgiu em 1992, quando seus integrantes, então jovens estudantes, se inscreveram para a série de concertos didáticos que o Museu Villa-Lobos mantém em sua sede no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. O grupo adaptava obras de Villa-Lobos como o Choro nº1 e a Suíte popular brasileira para a sonoridade dos instrumentos de choro. A experiência rendeu uma colaboração de quase cinco anos com o Museu e a gravação, no disco de estréia do grupo, de Melodia sentimental, uma das melodias mais conhecidas de Villa-Lobos. O disco teve uma acolhida calorosa de público e crítica – o jornalista João Máximo o colocou em sua lista dos dez melhores do ano de 1999 - e a faixa sempre foi uma das que mais fazia sucesso nos shows, fossem eles realizados em festivais especializados de música instrumental, salas de concerto ou na efervescente noite da Lapa carioca.
Atenta a este trabalho, a diretora artística da Biscoito Fino, Olívia Hime, propôs ao grupo a realização do disco. O convite foi prontamente aceito, embora gravar Villa-Lobos seja um grande desafio para qualquer intérprete. Sua obra, além de vasta, é variadíssima e notoriamente intrincada. Villa-Lobos era uma verdadeira usina de idéias e sua pena não parecia oferecer limites à sua imaginação. O universo sonoro de Villa-Lobos é recheado com harmonias intrigantes, ambíguas e, por vezes, totalmente excêntricas. Ritmicamente, talvez nenhum outro compositor demonstre tanta desenvoltura em lidar com polirritmias. Villa sintetizou as complexidades métricas das músicas populares em uma linguagem própria e transcendental e pôs tudo a serviço de uma imaginação arrebatadora.
Por outro lado, é notável que um compositor tão célebre tenha obras tão pouco mencionadas e executadas. Neste aspecto, o trabalho do grupo foi primoroso. O disco chama a atenção pela escolha do repertório. Fugindo do óbvio, ali estão algumas peças pouco conhecidas, como é o caso de Ondulando, obra da primeira fase do compositor que mostra claramente sua poderosa verve melódica e uma pouco mencionada influência ibérica, e de Canção das águas claras, composição dos últimos anos, inédita em disco até agora. E também o genial poema sinfônico O papagaio do moleque, adaptado livremente para o formato popular, com o mérito de resgatar um dos momentos mais inspirados do grande autor. Há ainda peças mais conhecidas, como a profundamente tocante Lenda do caboclo e a introdução das Bachianas nº1, que destacam a nítida preferência do compositor pelo uso de melodias de caráter popular, trabalhadas de maneira rebuscada.
Uma característica marcante do disco é justamente o trabalho de transcrição e adaptação do material original, extremamente cuidadoso e bem urdido. Se, por um lado, as peças de Villa-Lobos ganham uma leitura que as re-contextualizam no presente momento cultural, abrindo as portas e facilitando a entrada no universo de sua obra, por outro, o grupo expande a gama de sua própria sonoridade, apontando caminhos e desbravando territórios na fronteira entre o erudito e o popular, lugar em que Villa-Lobos, ele mesmo sempre gostou de trabalhar. Sob este ponto de vista, o disco assume o ar de uma homenagem reverente e apaixonada, e sem dúvida alguma se soma ao que há de mais interessante na atual produção da música brasileira.
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Data de criação : 07/07/23 Última atualização : 10/01/28 20:54 / 995 Artigos publicados
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