30 anos sem Elis Regina
Cantoras da nova MPB falam sobre a influência da grande dama da música em suas carreiras
por Larissa Saram
Terça-feira, 19 de janeiro de 1982. O relógio marcava 10h30 quando duas portas do apartamento na rua Melo Alves, região dos Jardins, em São Paulo, tiveram de ser arrombadas. Lá dentro, a história da música brasileira ganhava um novo e triste capítulo. Elis Regina estava caída no chão de seu quarto. Sem vida.
Depois de 30 anos, a morte da cantora ainda é uma lembrança dolorida para os admiradores da boa música. Dona de apresentações exuberantes, marcadas pelo inesquecível movimento de braços e intensidade vocal quase agressiva, a gaúcha deixou como herança sua genialidade em conseguir amalgamar de forma equilibrada técnica e emoção. Não é à toa que algumas das principais vozes femininas brasileiras buscam em Elis o exemplo da perfeição que gostariam de alcançar.
Convidamos cinco artistas da nova safra da MPB para falar sobre a importância do furacão Elis Regina em suas formações como pessoas e cantoras. Uma homenagem a uma das maiores estrelas do cancioneiro nacional.
Silvia Machete
"Eu não me lembro da primeira vez em que ouvi Elis Regina, mas aos 16 anos veio parar na minha mão um CD dela cantando em Montreux. Foi quando conheci Madalenae Atrás da Porta. Quanto mais eu ouvia, mais eu gostava do disco e da cantora. Hoje, quanto mais informação tenho a respeito da Elis, mais fico impressionada. Acho que era uma artista que amava estar no palco, então me identifico. A intensidade dela me toca muito. Minha canção favorita é Alô Alô Marciano, porque é debochada, Elis brinca demais com a voz e a interpretação."
Blubell
"Se o Brasil tem uma cantora de jazz, essa artista é Elis Regina. Ela tem uma importância enorme na minha formação, estudei sua obra a fundo enquanto aprendia música. A Elis me ensinou a ser séria, no sentido de saber o que se canta, aprofundar-se em suas letras até entrar em você, para cantar aquilo como quem conta uma história que viveu. E ela fazia isso como ninguém. Em outra fase, Elis me ensinou a ter senso de humor ao cantar e essa lição também foi importantíssima. Minha mãe tinha vários LPs dela em casa, então a ouço desde criança. Lembro de cantar e dançar bem novinha ao som de Alô-Alô Marciano... Mas uma das canções que me arrebatam é Por Toda a Minha Vida. Aliás, todo o disco "ElisTom" é de uma preciosidade sem tamanho."
Cibelle
"Conheci Elis Regina aos 17 anos, com ElisTom. Ouvi o disco inteiro e foi muito emocionante, sai comprando todos os CDs dela e ouvia muito, sem parar. Aquela interpretação repleta de sentimento é algo que hoje em dia já não se vê mais. Ela não se preocupava em cantar certinho, e é isso que eu amo e admiro. A influência de Elis na minha formação é enorme, sempre gostei de sua força, sua maneira forte de cantar. “O que tinha de ser”, do disco ElisTom mesmo é a minha música do coração. Quando ouvi, me fez chorar."
Bruna Caram
"Com 14 ou 15 anos, quando comecei a estudar canto, minha professora, Lucila Novaes, estava lendo a biografia de Elis. Sem nem conhecer a obra da cantora, comprei o livro e me debulhei sobre ele. Fui ouvindo cada canção à medida que aparecia na história. Foi muito, muito emocionante. E por ter lido essa biografia que entendi, pela primeira vez na vida, que cantar era coisa séria. Uma das primeiras músicas que ouvi – e assisti ao vídeo – foi “Arrastão”. Fiquei maravilhada. Elis tinha só 19 anos na época, como pode? Com aquela força, ousadia, coragem, sensibilidade, vozeirão, alma. Eu adoro a canção "Vou Deitar e Rolar". Vibrante, divertida, com um leve ar de pé-na-bunda-bem-humorado, tem tudo o que amo cantar."
Roberta Sá
"Parece que nasci ouvindo Elis Regina. O primeiro disco que escutei foi ElisTom, para mim, um dos melhores até hoje. Lembro de ter pensado “Uau! O que é isso? Que voz é essa?”. Tem algumas coisas da Elis que me acompanham até hoje, sua busca por um canto técnico e ao mesmo tempo emocionado me inspira muito. Cheguei até a gravar Modinha, no meu DVD Pra Se Ter Alegria. Fico pensando em como ela morreu jovem e o quanto nós perdemos com a sua morte."
VIVA ELIS!
A partir do dia 17 de março, data em que Elis Regina completaria 67 anos, sua filha, a cantora Maria Rita, fará cinco shows gratuitos, com um repertório que ficou conhecido na voz da mãe. A turnê estreará no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, e passará ainda por Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre. As apresentação fazem parte do projeto Viva Elis, organizado por João Marcelo Bôscolli, também filho da cantora.
Também serão colocados à venda, a partir do segundo semestre, dois álbuns da cantora, em reedições ampliadas, com mais do que o dobro das faixas que havia nas versões originais em LP. Transversal do Tempo, lançado em 1977, traz o roteiro completo do show Elis em dois atos, com 25 números e temas inéditos. O original incluía apenas 12 canções. Também gravado ao vivo, Montreux Jazz Festival registra a participação de Elis no festival suíço, em 1979.
A Universal Music prepara ainda uma caixa com a discografia de Elis Regina na gravadora, com álbuns lançados entre 1965 e 1979. Um livro biográfico e um documentário com depoimentos de artistas e amigos que conviveram com Elis, entre eles Nelson Motta, Roberto Menescal, Gal Costa, Gilberto Gil e Fagner completam a série de homenagens.







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