Marcel Powell e Philippe Baden Powell estão com novos projetos no
mercado, "Corda com Bala" (Rob Digital) e "Afrosambajazz", este em
parceria do segundo com Mario Adnet, e dedicado ao repertório do
pai, o violonista Baden Powell
O legado musical de Baden Powell (1937/2000) continua sendo bem
tratado por seus filhos, o violonista Marcel e o pianista Phillipe.
Músicos com formação iniciada ainda na Europa, acompanhando os
shows de Baden, eles mostram que a musicalidade do clã continua
inabalável. Em projetos separados, como costumam fazer, depois de
dois discos lançados com o pai ("Baden Powell e Filhos" e "Suíte
Afro-Brasileira"), eles apresentam um pouco desta herança com que
atualizam não apenas a música do pai. Na companhia de André Neiva
(baixo) e Sandro Araújo (bateria), o violão de Marcel mostra uma
pegada bastante marcada pelo flamenco e por muita brasilidade, até
mesmo diante de um "Cry me a river" (Arthur Hamilton, sucesso de
Diana Krall). Um repertório que vai de Lenine a Lamartine Babo,
passa pela "Bala com Bala" de João Bosco que inspira o título, mas
não se esquece do pai, objeto de todo o "Afrosambajazz", de
Philllipe e Mario Adnet.
Após "Aperto de Mão" (Rob Digital, 2005), Marcel, 27, deita e rola
com seus amigos, no trio que leva seu nome e tem um caráter
instrumental brasileiríssimo. Começa a mandar o recado com "O morro
não tem vez" (Tom e Vinicius). Depois, a sofisticação atinge seu
extremo na tal releitura de Arthur Hamilton, com suas cordas ora
"mandando bala", ora caindo no samba e na bossa, entre acepções
flamencas e eruditas, com direito a solo de Sandro. Produzido pelo
guitarrista Victor Biglione, "Corda com Bala" samba mais, com muito
suingue do trio. "O dia em que faremos contato" (Lenine e Bráulio
Tavares) tem citação da já tocada "O morro não tem vez", funk e
muitas viagens nas cordas siderais de Marcel.
Lançado recentemente na loja de discos Modern Sound, em Copacabana,
o álbum impressiona pela intensidade com que verte cada faixa em
diversas direções. Desde seus primeiros acordes, elas nos levam
além do horizonte original das canções, como em "Serra da Boa
Esperança" (Lamartine Babo). Homenageado no disco anterior pelo
filho, Baden manda de presente a inédita "Um abraço no trio
elétrico", uma frenética saudação, em "notas soltas", ao bandolim
de Armandinho, e "Chora, violão", um choro clássico, praticamente
inédito, em homenagem a Raphael Rabello. Ambas são tocadas em solo
pelo filho. O violão de Marcel ganha timbres de seresta no seu
"Lamento Fluminense". Na seqüência, a nordestinidade, ainda lírica,
logo endiabrada, do medley de "Lamento Sertanejo" (Dominguinhos e
Gilberto Gil) com "Feira de Mangaio" (Sivuca e Glória Gadelha).
Gravado no "Aperto de mão", com "Desenho de Giz", João Bosco volta
no medley "Bala com Bala" e "Incompatibilidade de gênios". Fechando
a festa, "Essa mulher" (Joyce e Ana Terra) também tem cores
brasileiras e jazzísticas, de um violão e um trio universais.
Saravá orquestrado
Os afro-sambas de Baden e Vinicius, que a novíssima gramática
brasileira trata agora de "afrossambas", continuam fazendo parte da
história da nossa música, e, como tal, devem seguir reverenciados.
É o caso deste encontro de arranjadores, o experiente violonista
Mario Adnet e o jovem pianista Philippe Baden Powell, patrocinado
pelo projeto Natura Musical. Depois de dedicar trabalhos sinfônicos
a Tom Jobim e Moacir Santos, Mario Adnet volta a orquestrar a obra
de outro gênio brasileiro. Sem aterem-se à maioria das letras, eles
têm o revezamento de grandes músicos do eixo Rio-São Paulo: Marcos
Nimrichter (piano e acordeom), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira
(bateria), Armando Marçal (percussão), Ricardo Silveira (guitarra),
Antonia Adnet (violão 7 cordas), Hugo Pilger (cello) e de um naipe
com Jessé Sadoc (clarinete e flugelhorn), Cristiano Alves
(clarone), Aquiles Moraes (trompete), Phiilip Doyle (trompa),
Everson Moraes e Vittor Santos (trombone), Joana Adnet (clarinete e
voz), Henrique Band (sax alto), Eduardo Neves (sax tenor), Teco
Cardoso (sax barítono) e Andréa Ernest Dias (flauta). Mônica
Salmaso dá voz a "Canto de Yemanjá" e a "Ladainha" (Baden e Silvia
Powell). Maúcha Adnet, a "Canto" (Baden e Idázio Tavares), também
da bela "Suíte Yansan", um dos momentos mais sublimes deste
projeto.
Em seu quarto CD, descontando os dois com Marcel e Baden, Philippe,
31, propõe junto a Adnet um leitura mais próxima de Moacir Santos
deste legado, sem trocadilhos, naturalmente precioso. Por sinal,
Baden chegou a estudar com Moacir. E certamente tiveram outros
vínculos estéticos. O resultado é que, nove anos após a morte de
Baden, temas como "Canto de Xangô", "Lamento de Exu", "Canto de
Ossanha", "Canto de Iemanjá" e "Berimbau" se unem a outros
afro-sambas, os feitos com Paulo César Pinheiro, como "Sermão",
além de outros que Baden (cuja imagem está presente no encarte em
algumas fotos, inclusive com Philippe e Mário) guardou para si,
como os inéditos "Ritmo Afro", "Lamento de Preto Velho" (com voz de
Carlos Negreiros) ou "Domingo de Ramos". E têm suas personalidades
afirmadas, ainda que, em meio a tanto ritmo, o lirismo, sobretudo
destas inéditas, como na suíte e na toada-choro "Caxangá de Oxalá",
possa nos surpreender. Claro, positivamente, ao contrário da
novíssima grafia criada pelos marketeiros deste projeto que saúda o
compositor com todo o seu ritmo e com todos os sopros que ele
jamais imaginou comportar em seu violão, além de uma voz e uma
percussão afro-brasileiras. Arranjos que podem ser interpretados
como outro dos grandes méritos do projeto.
CD
"Afrosambajazz"
Philippe
Baden Powell e Mario Adnet
R$ 35,00
14 faixas
2009
Biscoito Fino
"Corda com Bala"
Marcel
Powell Trio
R$ 25,00
10 faixas
2009
Rob Digital
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